Este capítulo de Neemias é lindo. Contudo, os comentaristas muitas vezes não o apreciam por causa da lista de nomes que aparece aqui. Aliás, é uma prática comum no livro de Neemias. Ele aprenseta sempre uma lista de nomes. Eis aqui mais uma listagem, só que esta é diferente. Aqui é a fundamentação de como vai acontecer o repovoamento da cidade.
É interessante notar que o texto não fala de nenhuma iniciativa de Neemias. Fala da atitude do povo. O que as pessoas do povo fizeram para o povoamento de Jerusalém. Sendo assim, podemos afirmar que Neemias era um homem que ouvia o povo. Escutava suas sugestões e as acatava. Esta é uma característica que sobressai em todo o livro. Mostra que ele é um verdadeiro homem de Deus, pois como Tiago afirma: "Sabei isto, meus amados irmãos: Todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar e tardio para se irar." (Tg 1.19). Os líderes actuais estão ouvindo as sugestões que lhes são apresentadas?
As boas ideias devem ser postas em prática. Foi o que aconteceu aqui. A cidade santa precisa ser repovoada. Sendo assim, ela deve ser repovoada por um povo santo. A igreja é o povo de Deus. É o povo santo, que foi chamado pelo Senhor para estar na sua presença. Povo adquirido por bom preço. Por este motivo devemos viver de em santidade de vida.
Olhando para este capítulo, quais as lições que aprendemos para as nossas vidas?
Reconstruiremos vidas quando ouvimos às pessoas. Isso parece óbvio, mas é a realidade. Já foi mencionado que é uma característica de Neemias. Contudo, este facto é uma característica dos servos de Deus. Moisés ouviu as orientações do seu sogro e por isso pode conduzir o povo de Israel pelo deserto. Quantas vezes estamos em diálogos com as pessoas, mas na realidade não ouvimos o que elas nos dizem?
O problema é que estamos nos isolando. Há uma espécie de medo em nossos dias. Líderes ficam quietos e procuram não conviver uns com os outros por temerem que os outros tomem o seu lugar. Não compartilham as coisas. Contudo, como afirmou Larry Crabb: "O individualismo exacerbado, a independência orgulhosa e o isolamento voluntário corrompem a natureza da nossa existência, tanto quanto tentar respirar debaixo d´água."[i] É isso que está acontecendo connosco. Estamos fugindo dos outros. Não queremos nos relacionar.
Neemias ouvia as pessoas. Aceitava suas sugestões. Por isso a reconstrução de Jerusalém estava se concretizando. Nós precisamos aprender ouvir os outros. Precisamos ter em nós a mesma atitude do Senhor Jesus, pois a "vida de Cristo só flui de mim para outro quando reger de bom grado pela paixão de conhecer o outro, de abençoá-lo e de ser conhecido por ele, para que juntos possamos desfrutar da comunhão com Cristo e um com o outro."[ii] Foi exactamente isto que aconteceu com Neemias. O povo se conhecia. Isso fica claro pelo conhecimento das genealogias. Abençoavam-se mutuamente (v.2) e juntos desfrutavam da adoração. E nós como nos encontramos como igreja do Senhor Jesus?
Precisamos ouvir os conselhos e pô-los em prática para que sejamos bem sucedidos.
Reconstruiremos vidas quando aceitarmos a dedicação dos outros. O versículo 2 mostra a dedicação das pessoas. Homens voluntariamente se ofereceram para habitar Jerusalém. Abdicam das suas vidas para ajudar a desenvolver o projecto do Senhor. "Voluntariamente deixam de lado suas diferenças pessoais e trabalham juntos para atingir a harmonia e um espírito de grupo certo."[iii] Sem o envolvimento e a dedicação das pessoas, a reconstrução das vidas seria um fracasso. Não podemos realizar tudo sozinhos. Necessitamos de ajuda. Precisamos de pessoas que assumam responsabilidades e se disponham a desenvolver ministérios que apoiem à liderança da igreja.
Líderes não podem fechar às portas para os seus irmãos que estão sedentos para se envolverem no trabalho da igreja. Não podem pensar que são os donos da verdade e que sabem tudo e por isso, todas as coisas devem ser feitas sob as suas ordens. Devemos nos voltar para o exemplo de Neemias. Precisamos ver o quanto ele ouviu o seu povo. É necessário entender como ele aceitou a dedicação das pessoas e permitiu que elas desenvolvessem os seus ministérios para a solidificação da obra. O que nós temos feito?
Neste envolvimento, Neemias fez a separação das águas. Não permitiu que a política se envolvesse com a religião. Será que ele era batista? Este é um dos princípios basilares dos batistas. "Entidades políticas e religiosas são mantidas separadamente. A herança espiritual de Israel forma a base do seu sistema de governo e regula os padrões éticos, mas não são os sacerdotes que regem o povo! Neemias estabelece a diferença entre deveres religiosos e seculares, é suficientemente sábio para usar esta divisão natural ao delegar responsabilidades e dividir a responsabilidade administrativa da cidade."[iv] Cada coisa em seu lugar. Assim devemos fazer nos ministérios da igreja. Cada um deve estar envolvido no seu ministério e preocupar-se com o mesmo, sem ficar intrometendo- se no ministério dos outros.
O crescimento da igreja depende do envolvimento dos seus membros. Crentes que voluntariamente abdicam de certas coisas para abençoarem outras vidas. Crentes maduros que desejam ver a reconstrução de vidas, para que isso aconteça, a liderança deve aceitar sua dedicação e envolvê-los activamente.
Reconstruiremos vidas quando as pessoas forem integradas ao grupo. É aqui que falhamos. Temos bons programas de ensino. Há uma boa organização. Contudo, as pessoas estão em busca de calor humano e comunhão. Hoje mais do que nunca as pessoas desejam fazer parte de um grupo, querem ter um sentido de segurança. É por isso que estamos perdendo muita gente. Não estamos compreendendo a real necessidade dos que têm vindo até nós.
Se formos sinceros e olharmos atentamente para o texto de Neemias, veremos que as pessoas foram buscar o seu lugar de origem. Desejavam estar num sítio onde tinham afinidades. Não queriam se sentir estranhas. Desejavam estar no seu grupo, sentindo o calor humano. É isso que nós devemos oferecer a elas. Jesus ofereceu isso. Foi presente, aceitou cada indivíduo e valorizou-o pelo que ele era e nunca pelo que tinha. Nosso problema é que estamos fazendo acepção de pessoas. Temos nossas preferências e por isso, deixamos outros de lado. Contudo a Bíblia adverte-nos que isto é pecado (Tg 2.1). É comum em nossas igrejas dar prioridade aos que têm títulos e que sobressaem na sociedade em detrimento dos que são simples.
Não conseguimos uma integração completa. Muitas vezes parece que somos seres de outro planeta. Muitas igrejas não conseguem compreender os jovens que ficaram conhecidos como a geração x. É por este motivo que Kevin Graham diz: "Entramos na igreja com a nossa auto-estima já machucada. Descobrimos então que a igreja nos faz sentir ainda mais culpados e indignos. A pregação é crítica ou irrelevante para nossa vida. A música é fraca. A liturgia é tediosa e sem sentido. Todos se vestem num "uniforme" evangélico, com sua melhor roupa dominical, fazendo-nos sentir maltrapilhos, inferiores e deslocados. Vamos a igreja tomando posições preconceituosas que dividem as pessoas e inferioriza certos grupos."[v]
A igreja precisa deixar seu jeitão de ser e começar a compreender as pessoas. Deve dedicar-se a elas para que aconteça a verdadeira integração, pois "como estamos na pós-modernidade, sem qualquer referencial, as pessoas podem vagar de um lado para outro, tangidas pelo vento de emoções, pressão de grupo, ou quaisquer modismos."[vi] Este é o cristianismo que está sendo vivido em nossos dias. Contudo, Neemias nos ensina a lutar buscando uma integração total. Isso só é possível se a igreja desenvolver um conceito de discipulado que mostre que a igreja é apresentada como a noiva de Cristo e isto simboliza que assumimos um compromisso sério uns com os outros levando esse compromisso como um casamento.
Que como igreja possamos aprender ouvir o clamor das pessoas. Aprendamos a aceitar a dedicação dos outros para desenvolvimento de algum ministério e fundamentalmente lutemos para que haja integração de todas as pessoas pelo que elas são e nunca pelo que representam ser.
Fonte: Informativo Vigiai.






