MINISTÉRIO COM ALEGRIA E NÃO COM GEMIDOS

17 Outubro 2009

Em nossa cultura batista concebemos os pastores como aqueles servos de Deus preparados para toda e qualquer situação, sempre prontos para atender as demandas de sua congregação.
Julio Zabatiero, professor da Faculdade de Teologia de Londrina (PR), afirma: “Se alguma vez foi simples descrever o ministério pastoral, hoje já não o é. Que faz um pastor? Ele prega, ensina, treina líderes, transforma a Igreja, ora, evangeliza, administra, visita, discipula, motiva, disciplina, dirige o louvor, aconselha, batiza, ministra a Ceia, arrecada, impetra a bênção, redige o boletim, governa, doutrina, quebra paradigmas, faz teologia, faz missões, dá testemunho excepcional de vida pessoal, familiar, financeira, prega em aniversários, casamentos e funerais – hiperinflação do ministério pastoral!” A essa afirmação, eu acrescentaria: pastor, também, é aquele que precisa ter saúde de ferro, sem o direito de adoecer e, conseqüentemente, afastar-se de suas atividades pastorais.
O pastor, de certa forma, incentiva a permanência dessas expectativas porque aprende desde cedo que “nunca deve dizer NÃO às suas ovelhas” e “nunca deve frustrar a sua igreja...”.
Alguém escreveu no site da Sepal o seguinte: “As ovelhas adoecem. O pastor não! As ovelhas se irritam. O pastor não. As ovelhas têm problemas. O pastor não. O dinheiro das ovelhas é sempre curto. O do pastor tem durabilidade eterna. As ovelhas podem chegar atrasadas ao culto. O pastor não. As ovelhas podem tirar férias da Igreja. O pastor não. As ovelhas decidem boicotar o trabalho da Igreja. O pastor é obrigado a encarar os visitantes tentando justificar os bancos vazios numa reunião especial. Ser pastor é divertido. Dolorido. As ovelhas brigam entre si e se afastam da Igreja. O pastor vai procurá-las e ouve os desaforos que deviam ser dito a outros. E ainda ora suplicando que Deus abençoe a ovelha transviada e revoltada”.
Não é de se espantar, portanto, que vemos um grande número de pastores enfermos. Pastores estão acometidos de enfermidades físicas e emocionais, com crises familiares, ministeriais e espirituais. Enfermos e em crise, sim!
Em outubro de 2007, após participar do Encontro Anual dos Pastores Batistas de Minas Gerais, fiquei profundamente preocupado com o expressivo número de pastores doentes e sem nenhuma perspectiva de tratamento de suas enfermidades.
Somente após aquele Encontro é que me dei conta de que eu estava enfermo também. Eu e minha querida esposa estávamos cansados, estressados, após 31 anos de intenso trabalho ministerial, e nem nos dávamos conta que os sintomas físicos que sentíamos eram conseqüências do estresse.
Tomamos a decisão de nos afastarmos para tratamento de saúde. A Igreja Batista do Barro Preto, a partir de sua liderança, foi compreensiva e agiu com graça, misericórdia, generosidade e com profundo amor cristão: deu-nos uma licença remunerada, sem tempo determinado, para que cuidássemos da nossa saúde. Tivemos todo o respaldo necessário, inclusive financeiro, e nos afastamos por três meses.
Somente um irmão, inocentemente, perguntou: “Pastores adoecem, também?” Pastores adoecem, sim!
Infelizmente, temos observado que são poucas as igrejas que compreendem as limitações e as fragilidades dos seus pastores e, conseqüentemente, cuidam deles. As lideranças de nossas igrejas precisam entender que a atividade pastoral é uma das mais estressantes que existe. Os pastores se envolvem com a igreja quase 24 horas por dia, física, emocional e espiritualmente. Quando saímos de férias, levamos a igreja conosco. Não temos horário para o atendimento de telefonemas, pois até nas madrugadas somos acionados. Envolvemo-nos emocionalmente com o nascimento dos filhos, o casamento dos jovens e a morte das nossas amadas ovelhas. Participamos de suas alegrias e choramos as suas perdas.
Diria alguém: “Isto faz parte do ministério!”
Talvez seja verdade, mas é verdade também que os pastores são de carne e osso, limitados, frágeis e sujeitos a enfermidades psicossomáticas. Quantas vezes desenvolvemos sentimentos que vão danificando as nossas emoções, como, por exemplo, a amargura! Quantos pastores e suas respectivas famílias experimentando amarguras em conseqüência das lides ministeriais!
São problemas sérios que invadem as nossas vidas, destroem a saúde emocional e os relacionamentos e, assim, enfraquecem a nossa vida espiritual e ministerial.
As igrejas precisam resgatar a exortação bíblica: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros” (Hb13.17, grifo nosso).
Ministério com alegria e não com gemidos!
Algo precisa ser feito com urgência para a preservação da saúde dos pastores e de suas famílias, para que continuem no exercício do ministério como instrumentos para a edificação de vidas e para a glória de Deus.
Queremos incentivar os pastores que cuidam do rebanho do Senhor a cuidarem-se, também.
Queremos conclamar as igrejas a cuidarem dos seus pastores, dando-lhes o repouso necessário e as condições para tratamento da saúde.
Queremos, finalmente, registrar a nossa profunda gratidão à Igreja Batista do Barro Preto pelo carinho demonstrado aos seus pastores e demais ministros, ao longo dos anos. Obrigado, igreja!

Escrito por ARLÉCIO FRANCO COSTA - Pastor da IB do Barro Preto, Belo Horizonte (MG)